A Física das Corridas de Massa: O Paralelo entre Vajont (Itália), Yungay (Peru) e Rasuwa/Gyirong (Nepal/Tibete)

A Dinâmica dos Grandes Desastres Geológicos em Vales

Os eventos de Vajont (Itália, 1963), Yungay (Peru, 1970) e a recente tragédia na região de Rasuwa/Gyirong (Nepal/Tibete, 2026) representam a manifestação máxima da gravidade dos desastres geológicos da história moderna.

A análise desses três desastres geológicos revela a evolução do entendimento técnico sobre a transformação da energia potencial gravitacional em energia cinética de massa fluida, a liquefação por fricção e a extrema vulnerabilidade da ocupação humana e de infraestruturas em fundos de vale.

Tabela Comparativa

1. O Paralelo Histórico: Conversão de Energia e Vales-Funil

A semelhança técnica entre os três casos reside na física da propagação da massa e na geometria desfavorável dos vales de recepção:

1. Vajont (Itália, 1963) — A Falha no Monitoramento da Encosta

Em 9 de outubro de 1963, 260 milhões de m³ de rocha do Monte Toc deslizaram em bloco para dentro do reservatório da represa de Vajont a cerca de 110 km/h. A indução pelo enchimento do lago saturou as camadas de argila basais, reduzindo a resistência ao cisalhamento. O deslocamento instantâneo da lâmina d’água gerou uma onda gigante de 250 metros de altura que galgou a crista da estrutura (que permaneceu intacta) e destruiu a cidade de Longarone no fundo do vale, vitimando cerca de 2.000 pessoas.

Vista do reservatório de Vajont após os desastres geológicos (1963)

Vista do reservatório de Vajont após o escorregamento de massa (1963)
Fonte: Environment & Society Portal

2. Yungay (Peru, 1970) — A Liquefação e a Corrida de Alta Velocidade

Em 31 de maio de 1970, o sismo de Ancash (M 7.9) desestabilizou o pico norte do Nevado Huascarán, desprendendo 50 milhões de m³ de granito e gelo. Despencando mais de 3.000 metros na vertical, a intensa fricção gerada pelo impacto derreteu o gelo instantaneamente. A massa incorporou água e sedimentos do vale, transformando-se em um debris flow (corrida de detritos) que atingiu velocidades superiores a 300 km/h, ultrapassando barreiras topográficas e soterrando por completo a cidade de Yungay, causando mais de 20.000 mortes.

Vijarejo de Yungay 10 anos após o desastre (1980)

Vijarejo de Yungay 10 anos após o desastre (1980)
Fonte: Wikipedia

3. Nepal/Tibete — A Dinâmica Moderna dos Colapsos Glaciais

Na tragédia recente da bacia do Lhende Khola/Bhote Koshi, o colapso massivo de uma estrutura de gelo e rocha em alta altitude criou um pulso de altíssima energia. A mistura imediata da massa congelada e sedimentos com o curso d’água causou uma elevação vertiginosa do nível dos rios — com registros de variação superior a 8 metros em menos de 40 minutos —, arrancando pontes internacionais, postos fronteiriços e usinas hidrelétricas ao longo do vale.

Deslizamento na fronteira entre Nepal e Tibete

Deslizamento na fronteira entre Nepal e Tibete
Fonte: A Tribuna

Deslizamento na fronteira entre Nepal e Tibete

Fonte: ICL Notícias

2. O Colapso Glacial e o Impacto das Mudanças Climáticas

Dados de monitoramento remoto e relatórios de campo na bacia do rio Lhende Khola confirmaram que o evento no Himalaia foi disparado pelo colapso de uma geleira e fraturamento de rocha em alta altitude. Diferente de Vajont e Yungay, onde os gatilhos foram o enchimento de reservatório e um grande sismo, o evento atual reflete diretamente a degradação da criosfera acelerada pelo aquecimento global.

Mecanismos Geotécnicos do Colapso Glacial Induzido pelo Clima

  • Derretimento do Permafrost de Altitude: O gelo intercalado nas fendas rochosas atua como uma “cola estrutural” nas paredes das montanhas. O aumento contínuo das temperaturas globais derrete essa matriz, provocando a perda de coesão do maciço rochoso e induzindo colapsos massivos.
  • Pressão Hidráulica Subglacial: O derretimento acelerado da superfície faz com que a água percole pelas fendas até a base da geleira. Isso cria uma pressão hidráulica positiva na interface gelo-rocha, reduzindo o atrito e facilitando o deslizamento catastrófico da massa congelada.
  • Liquefação e Corrida de Detritos (Debris Flow): À medida que o bloco de gelo despenca pela calha do vale, o impacto mecânico derrete parte da massa, incorporando sedimentos fluvioglaciais e criando uma onda hiper-saturada de extrema densidade e velocidade.

3. As Lições para a Engenharia e Gestão de Riscos

Entre os grandes desastres geológicos, Vajont tornou-se o marco da necessidade de avaliação geológica e de estabilidade de encostas em reservatórios, e Yungay provou o perigo letal da ocupação urbana sobre leques aluviais, a tragédia no Nepal/Tibete reitera que o desenvolvimento em vales alpinos não pode ignorar a dinâmica da criosfera no topo das bacias.

A implantação de usinas hidrelétricas, estradas e postos de fronteira no fundo de vales íngremes exige:

  • Modelagem de ruína (dam break e corridas de massa) considerando eventos de alta energia e volumes de ruína variáveis (colapsos glaciais e GLOFs).
  • Sistemas de alerta precoce baseados em monitoramento remoto por radar de deformação de encostas e sensores fluviométricos automatizados.
  • Zoneamento e ordenamento territorial rigoroso na calha principal dos rios.

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